terça-feira, 30 de setembro de 2008

III – CAMINHOS DE SANTIAGO E DE FÁTIMA


Em menos de duas décadas, os quase esquecidos e abandonados Caminhos de Santiago, sofreram uma revitalização de dimensões inicialmente impensáveis. Por mais que alguns críticos possam ter visto, no recrudescer dessas peregrinações, algo anacrónico numa sociedade moderna, ser peregrino é uma experiencia de vida intemporalmente privilegiada. Com impacto profundo tanto na vivência da fé, como num melhor conhecimento de si mesmo, da cultura, história e património de que somos herdeiros, e ainda da própria condição humana.
Prestes a atingir de novo a dimensão das multidões de peregrinos europeus, registadas na Idade Média, os Caminhos de Santiago são agora percorridos por cidadãos dos cinco continentes. Mais do que nunca, os Caminhos de Santiago tornaram-se um caminho Universal, onde todos os povos da terra se irmanam na mesma condição de peregrinos.
Perante a importância mundial dos Caminhos de Santiago, e de todas as peregrinações em sentido lato, vários locais do mundo tem desenvolvido projectos de recuperação ou criação de rotas de peregrinação até Santiago, ou em torno de outros importantes santuários.
Dezenas de milhar de portugueses peregrinam todos os anos, desde os mais variados locais de Portugal ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima. Mas, tratando-se de uma peregrinação nascida já no século XX, não se verifica a existência de rotas históricas de peregrinação. Os peregrinos seguem maioritariamente pelas bermas de algumas estradas rodoviárias principais e secundárias, com todos os riscos e inconvenientes inerentes.
No sentido de alterar esta situação, proporcionando ao crescente número de peregrinos a Fátima caminhos mais interessantes, seguros e sinalizados, surgiram em Portugal os Caminhos de Fátima. O projecto foi lançado em 2003, pelo Centro Nacional de Cultura e pelo Santuário de Fátima, visando a criação e sinalização com marcos indicativos de direcção constituídos de setas azuis de caminhos de peregrinação para Fátima.
No âmbito desta iniciativa nasceram o Caminho do Tejo que se inicia no parque das Nações e liga a cidade de Lisboa a Fátima e o Caminho do Norte que visava ligar o Porto ao Santuário de Fátima. Mas, ainda há bem pouco tempo, o Caminho do Norte não se encontrava totalmente marcado com setas azuis entre Porto e Fátima.
De qualquer modo, como o Caminho do Norte utilizado para ligar Porto a Fátima recorre precisamente a parte do trajecto do principal Caminho de Santiago português, entre Lisboa e Porto (com passagem por Coimbra), já se encontra razoavelmente sinalizado em sentido contrário a Fátima (na direcção Lisboa-Porto) com setas amarelas (que são a sinalização básica utilizada em todos os Caminhos de Santiago).
Desta confluência entre a nova rota, ideal e segura para se peregrinar até Fátima desde o norte de Portugal e o traçado do antigo Caminho de Santiago, acabou por brotar uma nova e surpreendente possibilidade.
Alguns peregrinos do Caminho Francês, mais aventureiros, mesmo após percorrerem os 700 quilómetros principais desse caminho e ainda o pequeno prolongamento Galego até Finisterra, tem resolvido agora continuar para Sul, fazendo a sua peregrinação só terminar no Santuário de Fátima. Assim, tudo indica que nos próximos anos, o principal Caminho de Santiago português entre Lisboa e Santiago, se tornará também no sentido inverso (entre Santiago e Fátima) uma grande rota percorrida por pessoas de todo o mundo.
Por visão estratégica de alguns, ou por profundos sentimentos religiosos e pioneirismo de outros, Fátima ganhou uma rota de peregrinação transnacional por antigos caminhos, que verdadeiramente poderá começar no Santuário de Lourdes ou noutro ponto de França, seguindo todo o Caminho Francês até Santiago e depois continuando pelo Recuperado Caminho Português.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

II - O CAMINHO PORTUGUÊS


Com o recrudescimento das peregrinações a Santiago, surge também um novo olhar benigno da Europa sobre os Caminhos de Santiago, vendo neles uma das primeiras manifestações do espírito de cooperação e mobilidade europeia. Aproveitando os incentivos europeus à cooperação inter-regional e transfronteiriça voltaram-se a estreitar laços históricos entre Portugal e Galiza, unidos pelo chamado Caminho Português de Santiago.
A Galiza recuperou e sinalizou todo o caminho de Santiago Português, até Tui. Não tardou, que algumas personalidades portuguesas e as Associações Locais de Desenvolvimento do Minho aceitassem o desafio Galego e pensassem em recuperar os Caminhos de Santiago e em criar em Portugal algumas Associações de Amigos do Caminho de Santiago. Em meados dos anos 90 identificou-se, desmatou-se (onde necessário) e sinalizou-se o Caminho Central Português (dado existirem outras variantes mais litorais ou interiores) desde Ponte de Lima até à Ponte metálica de Valença.
Alguns portugueses, e muitos galegos, tinham começado a fazer sozinhos, ou em grupo, o caminho Português de Santiago, desde Valença ou Tui até à Catedral de Santiago. Um pequeno leque de aventureiros portugueses foram também arriscando partir em peregrinação de algumas localidades minhotas, como por exemplo Braga, seguindo pelas bermas das estradas principais.
Em Julho de 1998 surge finalmente a primeira peregrinação oficial pelo recuperado Caminho de Santiago Português, com partida de Ponte de Lima. Esse primeiro grupo organizado de cerca de 70 peregrinos, entre os quais tivemos o maior orgulho e satisfação em estar incluídos, contou com a organização e apoio da ADRIL e ADRIMINHO, bem como o apoio do Corpo de Voluntários Portugueses da Ordem de Malta, de alguns agrupamentos de escuteiros e Municípios minhotos e galegos.
Esta peregrinação, que foi especialmente acarinhada e bem recebida (diga-se com honras de estado) pelo Governo Regional da Galiza, serviu também para apresentação e arranque públicos da Associação dos Amigos do Caminho Português de Santiago, entretanto criada em Ponte de Lima.
Nos anos seguintes esta parceria foi mantida e novos grupos de peregrinos foram sendo organizados e partindo pelo Caminho português de Santiago, tanto a pé, como de bicicleta e até a cavalo. A par destes grupos motores, várias entidades, grupos e clubes foram organizando e peregrinando com os seus pequenos grupos pelo Caminho Português de Santiago.
A Associação dos Amigos do Caminho Português de Santiago foi prosseguindo em colaboração com entidades locais um intenso trabalho de identificação, limpeza e sinalização do Caminho Central Português para sul, conseguindo em 2001, o objectivo da peregrinação a Santiago poder principiar junto á Sé Catedral do Porto. Em 2004, complementou esse trabalho com a edição de um excelente e pormenorizado guia Porto - Santiago.
Entretanto, a Associação Galega congénere, movida por um forte dinamismo e amor ao caminho português de Santiago avançou resolutamente na marcação do Caminho Português de Santiago, entre Lisboa e Porto. Elaborou também um Guia desse caminho, com passagem por Coimbra, que pode ser consultado ou descarregado na internet, tanto em Galego, como em Português.
Passados que são dez anos dessa primeira peregrinação oficial de Ponte de Lima a Santiago, talvez movidos por um certo saudosismo, demos por nós a pesquisar na internet e nos livros a evolução que o Caminho Português registou. De Menos de uma centena de pessoas a percorrê-lo em 1998, ultrapassou já em 2007 a dezena de milhar de peregrinos, muitos deles com proveniência do Brasil.
È certo que o Caminho Português continua muito longe de se aproximar do Caminho Francês onde o número de peregrinos anual superava já o milhão de pessoas, nos finais da década de noventa. Todavia, tornou-se já o segundo Caminho de Santiago mais trilhado pelos peregrinos, e com fortes tendências de crescimento.
O Caminho Central Português, tem agora pouco menos distância, que os quase 800 quilómetros principais do Caminho Francês, assim os peregrinos tenham tempo e vontade para quererem começar de tão longe. Até porque, o mínimo exigido a um peregrino é que principie a peregrinação (a pé, bicicleta ou cavalo) a pelo menos cem quilómetros da Catedral de Santiago e possa fazer prova disso na sua Credencial do Peregrino.
Em muitos lugares de Portugal continuam a surgir pessoas, não só dispostas a serem peregrinos, como também em contribuírem para a ampliação, divulgação e melhoria de vários possíveis itinerários do Caminho Português de Santiago. O caminho português interior vai ganhando consistência, bem como surgindo já quem queira redescobrir os caminhos litorais ou interiores desde o Algarve e Alentejo.
Falta no entanto algo fundamental ao Caminho Português, quando comparado com o Caminho Francês, que é uma rede de albergues de peregrinos a preços económicos. Embora, desde 1998 até agora, já tenham surgido dois albergues, permanece ainda por concretizar muito trabalho nesta área.

I -CAMINHOS ANTIGOS - Património do Futuro


O progresso material registado nos últimos séculos motivou uma constante evolução e adaptação da actividade humana, com reflexos igualmente assinaláveis, em termos das comunicações e acessibilidades.
Uma rede de antigos caminhos que era calcorreada pelos nossos antepassados foi substituída pela rede rodoviária actual. As distâncias percorridas a pé; montados em animais (cavalos, mulas e burros); ou em carroças de tracção animal (nos caminhos capazes de o permitirem), deram lugar á viagem de carro e comboio. A cómoda e rápida viagem de avião substituiu, também, parte das viagens terrestres de longa distância.
A mudança da rede viária permitiu que as distâncias fossem superadas muito rapidamente, o que em articulação com muitas outras evoluções, registadas em inúmeros domínios, conduziu à chamada “aceleração” da vida moderna. E o esforço do progresso é uma viagem contínua em direcção ao futuro… Os caminhos antigos ficam esquecidos, ou remetidos a funções secundárias, sempre que a lógica da rede viária da modernidade não entende sobrepor-lhe estradas ou auto-estradas principais, preferindo criar novos traçados.
Existem assim, em Portugal e no mundo, imensos caminhos antigos abandonados, por onde todos deixam de passar (facto que é agravado em Portugal pela desertificação massiva de vastas zonas rurais), que a natureza vai reintegrando nos seus domínios. Muitos dos principais caminhos antigos são também pontualmente alargados e adaptados a funções menos nobres, como simples estradas de acesso a propriedades rurais e de vigilância e extracção florestal. Em zonas urbanas, os caminhos antigos foram entretanto convertidos em ruas fundamentais dos centros históricos, mas infelizmente as novas vias de circunvalação e variantes aos núcleos urbanos, cortam frequentemente a continuidade desse caminho antigo. Tudo isto parece ser da ordem natural do progresso…
Poucos encaram ainda os caminhos antigos como um gigantesco património que os nossos antepassados nos legaram. Claro que se tem classificado, como imóveis e monumentos de interesse público, calçadas e pontes romanas e até medievais. Isso salvaguarda da destruição o que hoje podemos chamar de “obras de arte” dos caminhos antigos, mas não o caminho antigo, como um todo.
Compreende-se que durante as últimas décadas os caminhos do passado, sem interesse para rodovias fossem encarados como algo que pudesse ser cortado e interrompido, desviado significativamente do percurso original, alcatroado, destruído. Parece não ter existido o cuidado de verificar se um caminho antigo em risco de destruição, era uma simples estrada de acesso a uma dezena de propriedades rústicas, ou antes a antiga Estrada Real ou romana (sem calçada), que ligava uma histórica rota de circulação nacional ou europeia.
A recuperação e revitalização dos Caminhos de Santiago vieram demonstrar o erro desta visão limitada. Em 1987, o Caminho de Santiago Francês foi declarado o Primeiro Itinerário Cultural Europeu. Foi, também, classificado de Património da Humanidade pela UNESCO, tanto na Espanha em 1993, como em França, no ano de 1998.