
Em menos de duas décadas, os quase esquecidos e abandonados Caminhos de Santiago, sofreram uma revitalização de dimensões inicialmente impensáveis. Por mais que alguns críticos possam ter visto, no recrudescer dessas peregrinações, algo anacrónico numa sociedade moderna, ser peregrino é uma experiencia de vida intemporalmente privilegiada. Com impacto profundo tanto na vivência da fé, como num melhor conhecimento de si mesmo, da cultura, história e património de que somos herdeiros, e ainda da própria condição humana.
Prestes a atingir de novo a dimensão das multidões de peregrinos europeus, registadas na Idade Média, os Caminhos de Santiago são agora percorridos por cidadãos dos cinco continentes. Mais do que nunca, os Caminhos de Santiago tornaram-se um caminho Universal, onde todos os povos da terra se irmanam na mesma condição de peregrinos.
Perante a importância mundial dos Caminhos de Santiago, e de todas as peregrinações em sentido lato, vários locais do mundo tem desenvolvido projectos de recuperação ou criação de rotas de peregrinação até Santiago, ou em torno de outros importantes santuários.
Dezenas de milhar de portugueses peregrinam todos os anos, desde os mais variados locais de Portugal ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima. Mas, tratando-se de uma peregrinação nascida já no século XX, não se verifica a existência de rotas históricas de peregrinação. Os peregrinos seguem maioritariamente pelas bermas de algumas estradas rodoviárias principais e secundárias, com todos os riscos e inconvenientes inerentes.
No sentido de alterar esta situação, proporcionando ao crescente número de peregrinos a Fátima caminhos mais interessantes, seguros e sinalizados, surgiram em Portugal os Caminhos de Fátima. O projecto foi lançado em 2003, pelo Centro Nacional de Cultura e pelo Santuário de Fátima, visando a criação e sinalização com marcos indicativos de direcção constituídos de setas azuis de caminhos de peregrinação para Fátima.
No âmbito desta iniciativa nasceram o Caminho do Tejo que se inicia no parque das Nações e liga a cidade de Lisboa a Fátima e o Caminho do Norte que visava ligar o Porto ao Santuário de Fátima. Mas, ainda há bem pouco tempo, o Caminho do Norte não se encontrava totalmente marcado com setas azuis entre Porto e Fátima.
De qualquer modo, como o Caminho do Norte utilizado para ligar Porto a Fátima recorre precisamente a parte do trajecto do principal Caminho de Santiago português, entre Lisboa e Porto (com passagem por Coimbra), já se encontra razoavelmente sinalizado em sentido contrário a Fátima (na direcção Lisboa-Porto) com setas amarelas (que são a sinalização básica utilizada em todos os Caminhos de Santiago).
Desta confluência entre a nova rota, ideal e segura para se peregrinar até Fátima desde o norte de Portugal e o traçado do antigo Caminho de Santiago, acabou por brotar uma nova e surpreendente possibilidade.
Alguns peregrinos do Caminho Francês, mais aventureiros, mesmo após percorrerem os 700 quilómetros principais desse caminho e ainda o pequeno prolongamento Galego até Finisterra, tem resolvido agora continuar para Sul, fazendo a sua peregrinação só terminar no Santuário de Fátima. Assim, tudo indica que nos próximos anos, o principal Caminho de Santiago português entre Lisboa e Santiago, se tornará também no sentido inverso (entre Santiago e Fátima) uma grande rota percorrida por pessoas de todo o mundo.
Por visão estratégica de alguns, ou por profundos sentimentos religiosos e pioneirismo de outros, Fátima ganhou uma rota de peregrinação transnacional por antigos caminhos, que verdadeiramente poderá começar no Santuário de Lourdes ou noutro ponto de França, seguindo todo o Caminho Francês até Santiago e depois continuando pelo Recuperado Caminho Português.

