quarta-feira, 17 de setembro de 2008

I -CAMINHOS ANTIGOS - Património do Futuro


O progresso material registado nos últimos séculos motivou uma constante evolução e adaptação da actividade humana, com reflexos igualmente assinaláveis, em termos das comunicações e acessibilidades.
Uma rede de antigos caminhos que era calcorreada pelos nossos antepassados foi substituída pela rede rodoviária actual. As distâncias percorridas a pé; montados em animais (cavalos, mulas e burros); ou em carroças de tracção animal (nos caminhos capazes de o permitirem), deram lugar á viagem de carro e comboio. A cómoda e rápida viagem de avião substituiu, também, parte das viagens terrestres de longa distância.
A mudança da rede viária permitiu que as distâncias fossem superadas muito rapidamente, o que em articulação com muitas outras evoluções, registadas em inúmeros domínios, conduziu à chamada “aceleração” da vida moderna. E o esforço do progresso é uma viagem contínua em direcção ao futuro… Os caminhos antigos ficam esquecidos, ou remetidos a funções secundárias, sempre que a lógica da rede viária da modernidade não entende sobrepor-lhe estradas ou auto-estradas principais, preferindo criar novos traçados.
Existem assim, em Portugal e no mundo, imensos caminhos antigos abandonados, por onde todos deixam de passar (facto que é agravado em Portugal pela desertificação massiva de vastas zonas rurais), que a natureza vai reintegrando nos seus domínios. Muitos dos principais caminhos antigos são também pontualmente alargados e adaptados a funções menos nobres, como simples estradas de acesso a propriedades rurais e de vigilância e extracção florestal. Em zonas urbanas, os caminhos antigos foram entretanto convertidos em ruas fundamentais dos centros históricos, mas infelizmente as novas vias de circunvalação e variantes aos núcleos urbanos, cortam frequentemente a continuidade desse caminho antigo. Tudo isto parece ser da ordem natural do progresso…
Poucos encaram ainda os caminhos antigos como um gigantesco património que os nossos antepassados nos legaram. Claro que se tem classificado, como imóveis e monumentos de interesse público, calçadas e pontes romanas e até medievais. Isso salvaguarda da destruição o que hoje podemos chamar de “obras de arte” dos caminhos antigos, mas não o caminho antigo, como um todo.
Compreende-se que durante as últimas décadas os caminhos do passado, sem interesse para rodovias fossem encarados como algo que pudesse ser cortado e interrompido, desviado significativamente do percurso original, alcatroado, destruído. Parece não ter existido o cuidado de verificar se um caminho antigo em risco de destruição, era uma simples estrada de acesso a uma dezena de propriedades rústicas, ou antes a antiga Estrada Real ou romana (sem calçada), que ligava uma histórica rota de circulação nacional ou europeia.
A recuperação e revitalização dos Caminhos de Santiago vieram demonstrar o erro desta visão limitada. Em 1987, o Caminho de Santiago Francês foi declarado o Primeiro Itinerário Cultural Europeu. Foi, também, classificado de Património da Humanidade pela UNESCO, tanto na Espanha em 1993, como em França, no ano de 1998.

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