quinta-feira, 9 de julho de 2009

"A morte só existe na nossa cabeça"!



Chego a Sintra durante a tarde do Sábado, dia 4 de Julho. Rumo à Quinta da Regaleira para finalmente concretizar uma sonhada visita àquele lugar mágico, tão conhecido através de vários livros e das descrições de alguns amigos. Ao tirar o bilhete escolho a opção de visita guiada à Regaleira. Enquanto aguardo a hora da visita aproveito para ir ao bar-esplanada beber uma água e petiscar uma queijada.
Na parede da esplanada evidencia-se uma faixa a divulgar a peça de teatro "A Tempestade" de William Shakespeare que é representada ao ar livre algumas noites, justamente na Regaleira.
Disfruto silenciosamente do cenário que se avista da esplanada, enquanto pondero como seria interessante assistir à "Tempestade". Diante da mesa, à qual estou sentado, passam três crianças a conversar. A rapariga, um pouco mais crescida, possivelmente com cerca de 10 ou 12 anos explica com uma notável convicção e eloquência de discurso aos dois rapazes um pouco mais jovens que a acompanham "(...) É muito interessante. Faz-nos pensar. E na verdade, a morte só existe na nossa cabeça"!
Embora não seja meu costume escutar as conversas dos outros, e de certo modo me escape o contexto da afirmação da jovem, a profundidade da frase e sobretudo o tom de convicção total deixa-me claramente surprendido.
É surpreendente ver uma simples criança falar de algo tão sério e complexo como a morte a outras crianças, quando tantos adultos fogem ao tema. Mas, sobretudo é espantosa a convicção absoluta da ausência de morte e da ressureição do ser humano. Embora não tenha estado presente em tais momentos históricos, no momento ocorre-me que nenhum dos grandes fundadores ou guias das principais religiões da humanidade terá defendido a imortalidade de forma mais convicta do que aquela criança acabara de fazer.
Os dois rapazes não contrapuseram a menor dúvida à afirmação da morte ser só uma ilusão da nossa cabeça. Eu, mesmo depois de pensar bem no assunto também não. Admito todavia que sou suspeito para falar da matéria. Desde há longos anos que me venho habituando a ver a morte como a noite e a vida como o dia. Todos morremos para um dia, quando na incerta noite adormecemos, antes de ressuscitarmos para a nova vida do dia seguinte.
É uma metáfora que me tranquiliza, criando a convicção profunda que um dia também adormeceremos desta vida, para mais tarde podermos acordar para outra. Aderi assim a uma ideia de imortalidade responsável, que filosoficamente obriga a aproveitar este breve dia que passa, antes que a noite chegue em breve. Mas, paradoxalmente impulsiona uma ética tremenda por acreditar que no dia seguinte sempre se irá colher o que se semeou nos dias anteriores à grande noite de permeio.
E se de facto a morte definitiva não for ilusão da nossa cabeça? Se por acaso isso fosse a realidade teria de o ser independentemente das convicções...O que pensamos sobre isso não faria a menor diferença.
Eu sempre concordarei com aquela rapariga, mesmo não sabendo quem seja. "A morte só existe na nossa cabeça". Respeito a morte, mas não a temo... Todos temos de morrer, e cada instante que passa é um instante a menos para que tal venha a acontecer. Mas, só chegamos a Ser nós mesmos, quando deixamos de ter medo disso e arriscamos tentar ser o sonho e o sentido de vida que somos.
E alguns minutos depois disto, estava eu a enfrentar os "Guardiães do Umbral" da Regaleira (como a foto documenta) que guardam as portas que se abrem e fecham entre os dois mundos!

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