
Em torno da “Linha de Comboio de Arganil"
São cerca de 11 da manhã de Sexta-feira, dia 27 de Maio, quando parto de Arganil, sozinho, com uma mochila e uma bandeira do MEP – Movimento Esperança Portugal, ás costas para a “Caminhada da Esperança” que durante dois dias irá percorrer um caminho até Coimbra em torno da sonhada “Linha de Comboio de Arganil”, mas que só chegou a Serpins, e agora, depois de removida para obras, nem sequer parte de Coimbra. O futuro da linha é cada vez mais incerto após as últimas verdades financeiras e declarações políticas… De um projecto para o moderno Metro de Superfície sonhado por alguns visionários políticos de Coimbra e arredores, já aparecem agora responsáveis a sugerir apenas a utilização de miniautocarros, mais económicos, em vez de Metro.
Atravesso a Mata de Arganil que vai estando cada vez mais cuidada e valorizada, rumo à aldeia do Casal de S. José, local por onde a Linha do Caminho de Arganil deveria ter chegado a Arganil, como previsto ainda em tempos da monarquia. Nunca chegou. Mas, as obras chegaram bem perto.
Na aproximação ao Rochel vamos falando com as pessoas que encontramos ainda (e felizmente) empenhadas a cuidar das suas culturas agrícolas pelos campos. Com todo o interesse, bem beirão, de bem receberem o viajante e de lhe apresentarem bem a sua terra, vão-me explicando minuciosamente cada passo da Linha. Logo me apontam os locais onde estão os aterros e terraplanagens que foram feitas há muitos, muitos anos. Dizem que a Linha tem marcos que provam que aquela é propriedade da empresa Cabo Mondego. E alguns afirmam, com orgulho, ter terrenos que na descrição do prédio rústico dizem nas confrontações “Pega com a Linha”. Afinal a linha que nunca chegou a Arganil possui terrenos expropriados até Arganil. E realizaram-se boa parte das terraplanagens, partes de túneis e fundações de obras de arte até 2 kms de distância. E isto elucida-nos bastante como, noutros tempos, também já se desperdiçava dinheiro público e empréstimos em projectos que depois morriam dois passos antes de alcançarem o objectivo.
Seguimos por entre pinhais e eucaliptais um percurso lateral, mas próximo, ao da linha até ao Pereiro e depois em direcção a Bordeiro, já no concelho de Góis. Atravessamos a parte florestal da Quinta da Capela até uma série de aldeias que surgem na margem direita do rio Ceira. Algumas senhoras moradoras e agricultoras nessa margem do Ceira vão-nos apontando onde na margem esquerda do Rio Ceira é “a linha” que “nunca teve carris” mas ainda assim consta nos registos das propriedades como “Linha” e tem marcos, pois era por ali que o comboio devia ter “passado para Góis/Arganil”. Mais acima cruzamos o rio Ceira para a margem esquerda, chegando a Vila Nova do Ceira debaixo de intenso temporal de chuva e trovoada. Aproveitamos para abrigo, um café, onde fazemos um ligeiro almoço tardio. Com o amainar da chuva seguimos até Serpins, onde a linha efectivamente chegou. Inquirindo o motorista de um dos autocarros ao Serviço da empresa “Metro do Mondego” percebemos que actualmente as populações têm uma oferta de autocarros numerosa, enquanto duram as obras.
Aproveitamos a paragem em 2 cafés de Serpins para ouvir as opiniões dos presentes sobre as obras da linha. Alguns destacavam que “Estava a ser feito um grande investimento”, mas todos temiam “que não fosse concluído” ou que os “carris nunca mais voltassem”. Um senhor de meia-idade disse-me com alguma ironia “então mas se eles não tinham dinheiro, para que é foram estragar a linha que existia”? Outro mais velho, retorquiu “Se calhar com o mesmo dinheiro ou menos tinham era acabado a linha que existia até à terra deste senhor (Arganil)”. Ou “então electrificavam a linha e pronto. Aliás ainda há anos tinham feito algumas melhorias” dizia um terceiro.
Lá segui encostado à linha mais um pouco, optando depois, dados os avisos a proibir a entrada de pessoas na área de obras por me desviar e seguir por Casal de Ermio até à Lousã enfrentando cerca de 8 kms, e não apenas os cerca de 5 de distância, que teria de vencer percorrendo a linha. Esse percurso na berma da estrada fez-me por várias vezes pensar que aquela estrada não parecia ter a largura nem a segurança suficiente para alguém poder transitar nela a pé… Mas isso já é outro assunto, o de algumas estradas serem bastante perigosas para se circular a pé.
Chego à Lousã com o anoitecer, reencontrando, por acaso, algumas pessoas conhecidas da minha actividade profissional, antes de me dirigir à residencial onde reservei quarto, por apenas 20 euros (e que foi de resto o único custo específico desta actividade de campanha, além de uns folhetos alusivos criados e impressos por mim, porque a alimentação é um custo que todos temos diariamente, mesmo sem campanha).
Sábado de manhã arranco cedo, mas acabo por me demorar um bocado nas imediações da linha, onde aproveito para visitar a feira semanal que aí decorre, apresentando ás pessoas a iniciativa que estava a realizar e divulgando um pouco o MEP.
Sigo caminho ora pelo espaço da linha, em zonas que se apresentava já com piso regular em gravilha ora por estradas marginais até Miranda do Corvo onde almoço. Continuo a seguir a linha de perto e a ter algumas conversas que vão no mesmo sentido de outras. Dizem-me que “a linha estava boa” e que podia “durar 30 anos sem obras” ou até “uma vida” numa versão mais entusiasmada… No fundo as pessoas até aceitam as obras se fosse para melhorar, mas tem medo que o Metro não chegue nunca, e para ficarem com mini autocarros preferiam ter a linha que existia antes. Aliás alguém me diz, já perto de Ceira, “Destruíram uma coisa tão boa, tão resistente, que vinha dos tempos da monarquia”, mas “que estava para durar”, e "é pena porque tínhamos uma linha de bitola europeia –percebe?” Há “tanta linha em Portugal de bitola curta que não dá para ligar com nada, e nessas não foram mexer”.
Continuo para Coimbra, agora pela estrada da Beira, lembrando-me estar a repetir um caminho que há meses tinha percorrido como peregrino em Direcção a Santiago de Compostela (pois na idade média para se entrar em Coimbra vindo do lado esquerdo do Mondego, ou se passava ali de barco, perto de onde hoje é a Ponte Portela e a da linha da Lousã), ou tinha de se continuar para só entrar em Coimbra pela antiga Ponte de Santa Clara.
Concluída esta “Caminhada Esperança” em Coimbra, após a travessia de 5 concelhos em 2 dias, chegou a hora de escrever a crónica a relatar a viagem, antes que os factos se comecem a desvanecer e perder alguma nitidez.
Independentemente dos resultados eleitorais virem a demonstrar ou não a conquista de mais umas dezenas ou centenas de votos com esta acção de campanha, fico desde já satisfeito por ter cumprido a dura jornada que me havia proposto tentar, de percorrer todo o “Caminho de Ferro de Arganil” e que apenas por nunca lá ter chegado, passou a ser chamado da Lousã.
Nesta caminhada empreendi o meu esforço num sentido construtivo de ouvir as populações que de algum modo enquanto candidato a deputado me proponho representar, caso assim o decidam. Procurei também ver no terreno a arqueologia de um sonho, porque tantas pessoas de Arganil e da Beira Serra se bateram durante décadas. Demonstrei que é possível fazer política, poupando custos, se estivermos disponíveis para nos esforçar física e criativamente; que é perfeitamente seguro um candidato andar sozinho e falar aberta e directamente com os seus concidadãos, sem escoltas nem comitivas. Fiz uma acção de campanha sem grandes emissões de carbono e ainda tirei algumas fotos interessantes pelo caminho.
Gostaria certamente de fazer uma caminhada por todo o distrito, ocupando todos os dias de campanha, mas infelizmente a agenda profissional não o permite, afinal todos precisamos, cada vez mais, de contribuir não só para reduzir a despesa pública, como para criar mais riqueza em Portugal. Mas, em trabalho, acabo por percorrer semanalmente grande parte dos distritos de Coimbra e Viseu.
Por último, acabei por ter um pretexto para escrever esta crónica de campanha, dado que apesar de felizmente vários média regionais noticiarem o evento em igualdade com as iniciativas de outros partidos, nenhum média acabou por ter um jornalista disponível para ir ao terreno fazer a reportagem desta actividade original do MEP. Para compensar irei pedir-lhe que publiquem total, ou parcialmente esta crónica.
Coimbra, 28 de Maio de 2011
