
Novos passos arganilenses por velhos caminhos
Três arganilenses concluíram, no dia 9 de Setembro deste ano Jacobeu, aquela que terá sido a primeira peregrinação a pé dos tempos modernos entre Arganil e Santiago de Compostela. Seguindo os antigos caminhos medievais de Santiago os peregrinos arganilenses percorreram cerca de 470 quilómetros em 16 dias. Entre Arganil e Ponte de Lima caminharam apenas os três, com as mochilas às costas. De Ponte de Lima a Santiago de Compostela estiveram entre os 105 peregrinos que integraram a XI peregrinação da Associação dos Amigos do Caminho Português de Santiago (AACPS).
A alvorada do domingo dia 25 de Julho, precisamente dia de Santiago, foi a data escolhida para simbolicamente principiar a peregrinação de Arganil a Santiago de Compostela. Os peregrinos António Pedro Castanheira, Carlos Magalhães e Michael Gonçalves reuniram-se no Sarzedo, junto à fonte da Rainha Santa Isabel, onde outrora existiu uma capela possivelmente dedicada a essa rainha e também peregrina (reza a lenda que pelo menos por duas vezes) do Caminho português de Santiago.
Antes deste dia, os peregrinos já tinham optado por incluir o caminho de Arganil ao Sarzedo numa “Jornada Zero” de treino a 17 de Julho. Nessa “Jornada Zero” os dois peregrinos sarzedenses tinham optado por subir a Serra da Moita visitando a Santa Eufémia e o Senhor da Serra seguindo depois ao Gualdim; Venda da Serra; Alvoeira; Pousadoros; Secarias; Arganil; visita à capela Medieval de S. Pedro e regresso ao Sarzedo. Carlos Magalhães optou por descer desde o Mont’ Alto até Arganil, capela de S. Pedro e Sarzedo.
Perante a inexistência de levantamentos completos e de marcação dos Caminhos de Santiago na nossa região a organização desta peregrinação implicou bastante investigação prévia (tanto documental, como no terreno junto das pessoas mais antigas das localidades) sobre a rede viária de caminhos e estradas antigas entre Arganil e Santa Clara em Coimbra, local onde encontraram e passaram a seguir o Caminho Central Português já investigado e sinalizado há alguns anos, desde Lisboa a Coimbra, Porto, Ponte de Lima e Santiago de Compostela.
Como previsto, no dia de Santiago, os 3 peregrinos saíram do Sarzedo pela antiga Estrada Real que outrora atravessava a povoação e grande parte da freguesia até à Urgueira, ligando depois à Estrada Real que precedeu a Estrada da Beira do século XIX e em alguns pontos se confunde até com esta. Na Catraia dos Poços seguiram por uma estrada florestal sobreposta à histórica passagem junto à quinta do Carapinhal, cruzando parcialmente a aldeia dos Poços e voltando à estrada florestal até à Texugueira e Cortiça, local de passagem da antiga estrada romana e medieval. Desceram ao cruzamento de Paradela, confluindo aí a antiga estrada com a Estrada da Beira actual até à capela da Sobreira, percorrendo a rua principal da povoação antes de o traçado voltar a estar sobreposto pela N17.
Um pouco antes do Mucelão seguiram pela saída identificada e sinalizada como “Caminho de Fátima”, percorrendo uma antiga via pela Quinta da Carvalha até à histórica aldeia de Ponte da Mucela. Atravessaram esta antiga aldeia de passagem e hospedagem de tantos viajantes ilustres e anónimos, desembocando na Ponte sobre o Rio Alva, construída na época de D. Dinis, mas reaproveitando algum material de uma primitiva ponte Romana.
Já no concelho de Vila Nova de Poiares subiram quase em linha recta pela antiga estrada Real até ao Alto de S. Pedro Dias, descendo depois em direcção a Venda Nova e Moinhos. Passando por Secundeira atingiram Risca Silva e depois a antiga entrada na Vila de Poiares.
Após o treino e esta primeira aventura, os peregrinos retomaram a peregrinação nos dias 6, 7 e 8 de Agosto. Na sexta-feira dia 6 partiram de Vila Nova de Poiares por antigas vias rumo ao Crasto, onde iniciaram a subida da mítica Serra do Carvalho até ao topo. A descida levou a Ceira, local onde se abriam duas possibilidades de chegar a Santa Clara. Atravessaram o Mondego pela Ponte da Portela, local bastante próximo do sítio onde outrora muitas pessoas terão cruzado o Mondego a Vau. Seguindo por vias urbanas da margem direita do rio chegaram à ponte de Santa Clara. Após o almoço seguiu-se a visita ao Convento de Santa Clara a Velha onde encontraram também uma exposição sobre a vida medieval de Coimbra e deste convento, do antigo hospital que apoiava os peregrinos e os necessitados e ainda sobre a maior figura das Clarissas, a rainha e peregrina Santa Isabel. Ao final da tarde percorreram ainda o Caminho dentro da Baixa de Coimbra, ficando alojados num hotel da cidade.
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